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Ao me visitar no hospital, mãinha me chama pelo nome de meu irmão. Tão aturdida pelo prenúncio de perder o segundo filho que nem reparou. Embaralhou passado e presente. Presente e futuro. Trocou Pedro por Paulo. Como quem troca açúcar por sal no preparo de um bolo que será servido a outra pessoa. Não me agrada a confusão. Mas aceito sem cara feia. Como uma visita sem intimidade para fazer queixa. Como um parente distante que se encontra de passagem. Como o filho obediente que sempre tentei ser.

Quem grita em meu lugar é o monitor cardíaco.

Enquanto duas enfermeiras mirradas tentam me socorrer, sinto o peso de um elefante sobre o meu peito. Não sei quanto tempo depois acordei. Nem sei se estou mesmo acordado. O respirador que encobre meu nariz não dá conta de abafar o perfume da manga. Seu caldo doce escorre pelas paredes da sala de UTI, como escorria pelas bochechas de meu irmão antes de seu enterro.

Minha cama pende um pouco pra direita, um pouco pra esquerda. Daqui, vejo Paulinho lá no alto da mangueira. Vejo o tronco molhado pelas chuvas de verão. Vejo o lodo traiçoeiro por debaixo de seus pés. Não, não pode ser. Do corpo do Pedro de trinta, eu me descolo e levanto como o menino de oito. Minhas pernas franzinas correm pela serra verde, obstinadas a vencer o impulso da gravidade. Do alto, ele despenca anos antes de amadurecer. A mesma força que mantém os atros alinhados é a que empurra meu irmão contra a terra.

Fosse meia hora antes, falava que era perigoso subir. Fossem dez minutos antes, gritava pra que ele se segurasse. Fossem dois minutos antes, eu erguia meus braços pra amparar os dele, mesmo que fosse impossível conter a queda. Mas não. Só cheguei a tempo de flagrar sua carne contorcida e seus olhos sombrios. Me agacho ao seu lado com a tristeza camuflada pela tempestade que volta a cair. Deito sobre a terra e peço baixinho – que Deus troque você por mim. Como por vezes nossos pais trocam os nossos nomes.

Nesse dia, eu também morri.

Hoje, o corpo do Pedro de trinta é levado às pressas até uma sala de cirurgia. Impedida de entrar, minha mãe espera. Que difícil me ver tão sem brilho, escondido pela luz de holofotes hospitalares. Sob efeito da anestesia, meu coração se equilibra num compasso fino. Os doutores que me cercam me cortam peito abaixo, até quase o umbigo. Todos de branco. Como se vestir esta cor oposta ao luto fosse capaz de espantar a morte. Tocam minha carne, meus órgãos. Com suas luvas plásticas que não aquecem. Nem me protegem da frieza metálica do bisturi.

Do teto caem pequenas pedras, uma chuva de granizo. Cada pedaço atravessa minha carne como uma fisgada e mais outra. Infiltrado, o gelo irradia centímetro a centímetro. Petrifica ossos, rins, intestino, fígado. Em outra sala, minha mãe ajoelhada pede a Deus pela vida de seu filho. Eu só peço que me livre da culpa. A culpa por não salvar meu irmão. A culpa por invejar meu irmão. A culpa por amar tanto meu irmão.

Ao contrário de mim, os médicos insistem. Me convulsionam com choques elétricos na tentativa de quebrar o gelo interno. Calotas polares imensas como penhascos. Eu diante do abismo. Lá embaixo, Paulinho. Mergulhado no mar, acenando e sorrindo. Eu me atiro em seus braços e afundamos unidos. Outra vez atados. Pedro-Paulo. Desta vez por um laço invisível tão resistente quanto o umbilical. Dois continentes, antes apartados, finalmente juntos. Costurados no mapa como um reparo da terra que refaz seu impacto primeiro. Repetimos o Big Bang às avessas, contraindo ao tamanho univitelino.

Nosso solo submerge. Inundado pela água salgada que dilui as fronteiras da pele. Nós, pedropaulo, de novo como semente. Em outra sala, nossa mãe tece as horas a fio como meias de bebê. Como se a espera pra chegada fosse também um ensaio pra partida. Nós florescemos. De longe alguém balbucia uma cantiga de ninar. Cada célula nossa se dispersa como pólen ao vento. Moléculas minúsculas, poeiras no cosmos. Como parte inseparável do infinito. Nós agora somos isso. Átomos que circulam no ritmo da roda do samba profundo.

De joelhos na sala, uma mãe espera o médico dizer se seu filho está vivo.

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