Que mania imbecil essa sua de guardar nota fiscal. Imbecil mesmo. Nem pense que vou pegar leve só porque você está morto. No começo, eu até gostava de abrir uma gaveta de meias e encontrar, sei lá, a nota de um jantar no nosso restaurante. Aí eu podia virar pra você e dizer: “Vamos lá na sexta? Eu faço a reserva. Se você não for trabalhar até tarde...”. Se bem que nos últimos meses você sempre trabalhava até tarde.
Todo santo dia era aquela ladainha. Sua metade do strogonoff na geladeira, intocada. Sua toalha no banheiro irritantemente seca ao lado da minha. Ainda que já fosse meia noite. Nas mensagens do celular, você me dizendo que não aguentava outra briga. E você queria o que? Até outro dia seus exames estavam na cabeceira da cama. Bem em cima das notas daquele self-service gorduroso pra onde você teimava em voltar. Mesmo que piorasse a sua pressão alta. Depois que você morreu, tive que fazer uma faxina só pra arrumar as notas que deixava pela casa. Juntei uma por uma dentro da sua pasta... E pronto, acabou. Quer dizer, ontem achei no meio de um livro uma nota de padaria. Aquele papel fino, desbotado, mal dava pra ler. Mas li.
Um café;
Um misto quente;
E um Sonho de Valsa.
Você sempre se lembrava de me trazer um chocolate. Era o meu prêmio diário por parar de fumar. Faz tanto tempo que não como chocolate... Passei uns dias sem fome nenhuma, sabe? Falam que é normal. Engraçado que outra noite sonhei que a gente subia uma montanha feita de chocolate. Assim que eu acordei, virei pro lado pra te contar. Viu como eu também sou imbecil? Esqueci que você tinha morrido. Durou um segundo. Pra completar, o fogão quebrou, acredita? Até aí vá lá, tem garantia. A gente fazia garantia estendida de tudo e a nota deve estar aqui em algum lugar. Na sua pasta, claro. Esse apartamento nunca ficou tanto tempo organizado. Nenhum prato na pia da cozinha, nenhuma música pop chiclete pra me chatear, nenhum sapato espalhado pelo chão da sala. Posso sentar aqui mesmo.
Abro agora a pasta.
Um milhão de notinhas. Nota da geladeira, da máquina de lavar, do hotel em Paquetá. Lembra dessa viagem? Foi logo depois do primeiro burnout. Nota do televisor 50 polegadas que você comprou quando teve aumento. A gente nem sabia se deixava na sala ou no quarto. Nota de farmácia? Tudo bem, você falou que o tarja preta era só enquanto as coisas não acalmavam. Outra nota de farmácia... Ah, uma nota do nosso restaurante. Por que a gente não comeu sobremesa esse dia? Mais uma nota de farmácia... Eu nem sabia que você tomava tudo isso de remédio. E cadê a porra da nota do fogão? Nem era pra esse fogão ter dado defeito. Durou o que? Um ano e meio? Ok que nada dura pra sempre e blábláblá. Mas as coisas têm que ser feitas pra durar por um tempo razoável. Não podem simplesmente pifar assim do nada: Puff. E eu que me vire, é isso? Você nem pra guardar a merda da nota do fogão. Porra, logo você!
Não. Chega. Vou acabar com essa papelada. Olha que lindo: essa montanha de notinhas parecendo a nossa montanha de chocolate. Quase perfeita, se eu não estivesse tremendo tanto. Onde foi parar o meu isqueiro? Aqui! Agora é só acender e... É só acender.... Só acender... Só...
Só.