Sem medo de careta

Eu e minha avó tínhamos um ritual só nosso de despedida. A porta da casa dela ficava no fim de um longo corredor no último andar do Edifício Ana Maria. Começávamos como qualquer despedida: um abraço na porta, meu pai me pegava pela mão e ela continuava na porta olhando a gente caminhar pelo corredor imenso. A diferença é que eu sempre voltava. Às vezes poucos passos depois do primeiro abraço, às vezes do meio do corredor, ou já prestes a entrar no elevador. Soltava a mão do meu pai, dava meia volta e saia correndo pelo vão, rindo pra me acabar até abraçar a minha avó outra vez, que também ria junto comigo. A gente ficava lá brincando de eu “fingir que ia e voltar” até uma hora ir mesmo. Só que hoje a visita não era na casa dela.

No caminho para o hospital, meu pai tentava explicar que minha avó andava esquecida, que estava confundindo as pessoas, que lembrava do que tinha acontecido há um tempão, mas perguntava mil vezes se a enfermeira tinha trocado a roupa de cama. “Mas ela não esqueceu de mim não, né painho? Falei outro dia com ela pelo telefone”. “Não é assim, Jullinha. É que às vezes ela lembra e às vezes ela esquece”. Depois disso, preferimos seguir o caminho em silêncio (ou talvez a gente só tenha esquecido as palavras).

Lembrei que a minha avó não gostava que ele me chamasse de “Jullinha”. Ela dizia que eu tinha um nome forte e que “Jullinha” era coisa miúda demais pra mim. Eu costumava passar os finais de semana com ela e lembro que não tinha vista mais bonita no mundo que a vista da varanda dela. Além da praia e da piscina natural, do alto do nono andar, dava pra ver o centro de artesanato e o pavilhão de eventos. Como minha avó gostava mais de gente que de paisagem, de vez em quando descíamos pra ver de perto todo aquele acontecimento.

Lembro que a minha avó não gostava de andar de mãos dadas com as outras pessoas, só comigo. Ela dizia que eu tinha mãos bonitas, mãos de artista. A gente andava pelo calçadão, comia tapioca, parava na feira pra escolher uma renda dessas que minha avó fazia quando era mais nova, e depois vinha a melhor parte: os shows de folclore. Tinha Reisado, Guerreiro, Bumba Meu Boi. Mas isso era um segredo nosso.

Minha mãe não gostava muito de praia, nem de artesanato. E gostava menos ainda de Reisado, de Guerreiro e de Bumba Meu Boi. Mainha cantava “Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta”, mas no fundo acho que ela tinha mais medo que eu. Na praia da Pajuçara de mãos dadas com a minha avó, eu não tinha medo de nada.

Uma vez eu estava caminhando com o meu pai quando um desses folguedos começou. Ele me puxou pelo braço e disse que eram uns pobrezinhos, que precisavam dançar pra ganhar alguma coisa. Eu não entendi como aquela gente que rodava com roupas coloridas e coroa na cabeça podia ser pobre. Nunca disse ao meu pai que minha avó me levava pra lá.

Quando chegamos ao hospital, encontramos a namorada do painho. Ela falou que tinha acabado de doar sangue para minha avó, então eu pedi para fazer o mesmo. Mas depois de falar com uma ou outra enfermeira, meu pai voltou dizendo que para doar sangue precisava ter um peso mínimo e uma altura que eu não tinha. Nunca me senti tão pequena.

Subimos para o quarto da minha avó e assim que chegamos ela chorou muito. Eu também. Ela lembrou de mim! Perguntou como estava o Rio de Janeiro, se a minha mãe estava bem, se a minha avó por parte de mãe ainda estava gorda. Eu disse que não, que ela tinha feito cirurgia no estômago e agora estava magrinha, que mal dava pra reconhecer. Não demorou para minha avó repetir as mesmas perguntas.

Às vezes eu também repetia as respostas, outras vezes inventava novas: “Ih, vó, tá gorda do mesmo jeitinho. Não muda nunca”. Foi assim todas as vezes em que estive no hospital. Sempre que eu chegava era aquela surpresa. Ela falava como se não me visse há meses. Só que eu notei que cada vez que eu voltava, ela chorava um pouco menos. Meu pai continuava dizendo que ela não lembrava, mas nós duas sabíamos que de algum jeito ela lembrava sim. Esse foi nosso último segredo. E ficamos ali de mãos dadas, à espera do maior acontecimento da vida.