Segunda comunhão

Mainha alisa o cabelo para

a missa de domingo
Eu não entendo 
a língua dos padres 

Bisa diz que perdeu seu
sobrenome num navio e 
sua infância prum barão
Custei tanto a entender bisa

Ontem botaram fogo
no mato outra vez
Caboclo da Serra chorou
pelo olho do pajé

Mas só hoje entendi que
minha poesia é mandinga
ferida que se cura sozinha
Enquanto colonizam 
a terra, Exu brinda com 
São Francisco: - O sertão 
é movediço.

Tiroteio no morro

do Cantagalo assusta

os moradores de Ipanema.

 

(Os do morro

descansam em paz).

manchete

Todas as coisas

De tanto circularmos o mundo
em máquinas metálicas
geramos pequenos redemoinhos

 

De tanto cavarmos buracos
para erguer arranha-céus
criamos cidades rodeadas de abismos

 

Do alto do prédio mais alto da cidade-montanha
o homem ordenou guardar a ventania em vidros
de laboratórios
de telas de noticiários
de aquários para visitação
de excursões escolares

 

Diante do topo, o homem
viu sua moeda maior que o mundo
e não viu quando o vento derrubou
e o vidro trincou
e a cidade ruiu
e o mundo amparou o metal, o vidro,
os tijolos, as árvores, os rios, todas
as coisas, inclusive o homem
de pés no chão.

 

A dona de casa levanta às seis

arruma a casa

serve o marido

serve ao marido

A dona de casa é dona da casa?

Não serve mais.

donas

ao portador

Um poema de amor
sem destinatário
é como um quarto
de hotel de luxo
decorado com porta retratos
de hóspedes antigos
que já não visitam
aquele quarto
faz tempo.

Um poema de amor
sem destinatário
é um arranjo de
melodias guardadas
e remixadas para
o ritmo de hoje em dia.

Um poema de amor
sem destinatário
é uma obra de arte
uma colagem de
cartas de amores
passados, um quebra-cabeça
de memórias, uma brincadeira
de uma criança levada
que deixa por debaixo
da porta de um desconhecido
um poema
como quem desconhece
as regras
que não sejam
de amor.

Estrangeira

Uma parte de mim mora longe 

lá onde escrevi três anos atrás o final

do filme que lançaram hoje

lá onde o poema que saiu da minha mão 

previa a manchete de um jornal

de outro país 

 

Uma parte de mim me visita

nas tardes em que eu desço no ponto

de ônibus errado

nas noites em que eu me esqueço

deitada na rede

nas madrugadas em que eu acordo pensando que já é dia

 

me pergunto: sou eu a parte que fica

ou a que visita?

me pergunto: é sempre a mesma

a parte que fica e a que visita?

me pergunto: é minha uma parte que

vai e volta sem meu consentimento?

me pergunto: é minha a parte que pergunta?

me pergunto: a quem eu pergunto?