Opcionais

Pode até ser só uma impressão minha, mas não pude deixar de notar que desde o recente auge da gourmetização brasileira – que transformou nossas antigas carrocinhas de cachorro quente nos mais hypados food trucks – uma aparente inocente prática vem se repetindo em restaurantes, cafés e até bares por aí: o acompanhamento dos talheres junto aos sanduíches.

E veja bem, não é que já não existisse uma coação a essa burocracia em muitos estabelecimentos. Mas acontece que, ao menos quando se tratava de sanduíches, parecia existir uma onda progressista que aos poucos nos libertava da exigência social de haver intermédios entre a nossa vontade de abocanhar e o objeto a ser abocanhado. Havia, mesmo em lugares formais, a possibilidade de suprir nossa tão primitiva necessidade sem a fria presença de um pedaço de alumínio. Agora, no entanto, esse pequeno prazer parece se somar a extensa lista do que fica restrito aos ambientes privados (e olhe lá!).

No extremo oposto a essa tendência conservadora, eu, como venho há alguns anos trabalhando de casa e tenho, portanto, ela como meu mais frequente (quase único) ambiente de vivências gastronômicas, tenho me dado ao luxo de comer em boa parte das vezes usando apenas as extremidades dos meus membros anteriores. E vou dizer: nada se compara à sensação de apalpar legumes, salada e molho, puxar um bocado do prato com aquele caldinho escorrendo e levar a boca sem medo de lambuzar.

Às vezes me pego imaginando que efeito essa cena teria na pobre professora de etiqueta que tive quando mais nova – sim, tive aulas de etiqueta e, se duvidar, ainda tenho até o diploma guardado (o que é provavelmente a única coisa que me restou desse tempo). Tantos talheres diferentes para usar cada um da sua forma, no seu tempo, um para cada tipo de comida (de uma complexidade quase cirúrgica), e eu sequer comprei talheres desde que me mudei para a casa onde moro há dois anos. Verdade que trouxe alguns da minha antiga morada – uma meia dúzia de acinzentados que vez outra, tenho que admitir, até me ajudam. Afinal, seria difícil comer Nescau direto da lata sem o auxílio preciso de uma colher.

Consigo entender que para certos tipos de alimentos as tais ferramentas metálicas podem mesmo ser úteis. Mas acho, no mínimo, estranho que à medida em que o capricho na decoração da comida (que hoje costumamos apelidar de “prato”) aumentou, por outro lado, os sentidos que não se limitam à visão parecem ter sido deixados pra trás – ficam ali esquecidos junto aos guardanapos de papel – que faziam parte do nosso delicioso ritual de abocanhamento de sanduíches.

Para minha surpresa, encontrei a resposta desse conflito justo nas letras miúdas da placa de um Burguer Truck, que dizia: “talheres opcionais”.