O vagão das mulheres

O lado bom de estar preso é saber que enquanto eu estiver aqui, ela vai me deixar em paz. É difícil saber exatamente quanto tempo faz desde a última vez que a vi. Talvez meses, talvez mais. Foi no caminho para o trabalho. Lembro que eu estava atrasado, era a terceira vez que me atrasava aquela semana.

Entrei no primeiro vagão que pude, era o tal do vagão das mulheres. Como se não bastasse tudo que elas já têm, aqui no Rio de Janeiro criaram um vagão só pra elas. “Que se foda! O transporte é público, vou onde eu quiser”. Fiquei amassado no canto perto da porta, sufocado entre aquele falatório, os risos, o cheiro dos perfumes. Uma gorda sentada perto de mim passava batom, ela me viu pelo espelhinho. “Será que ela sabe que estou armado? E daí se souber também?”. Foi pelo espelhinho dela que eu vi lá no fundo, do outro lado do metrô, a Amanda. Já fazia tempo que ela me perseguia.

Outro dia achei um sutiã na minha gaveta, não sei como ela entrou na minha casa só pra isso. Cansei de ouvir a voz dela enquanto trabalhava no tribunal. Ela visitava a sala ao lado, e falava alto só para me provocar. Mas quando tomei coragem de conferir, ela já tinha ido e todos fingiram não entender o que eu falava. Dessa vez ela estava ali, inteira, em carne, osso e cabelos crespos. “Parece que a porrada que eu lhe dei no pescoço não deixou uma marca sequer”. Segurei a arma por dentro da roupa e tentei controlar minha respiração. “Ela não escolheu aparecer assim à toa, certamente veio se vingar”.

E pensar que eu quase joguei minha vida fora por causa dessazinha. A gente tinha saído para comemorar quatro meses de namoro, foi logo depois de eu assistir a um ensaio da peça dela. Naquele tempo eu ainda vivia enfeitiçado, tinha alguma coisa nela que me parecia pura. “Como fui otário”. Eu já devia saber que esse negócio de contracenar com um monte de macho era coisa de piranha. A gente estava no meio da ponte Rio Niterói quando ela me disse sobre o bebê. “Para quantos ela não deve ter dito isso antes?”.

Mesmo com o metrô lotado, dava para ver que a barriga dela não cresceu nada. “Vai ver que nunca existiu bebê nenhum”. Dessa vez, eu estava preparado, pronto para cortar qualquer papo furado dela. “Será que ela viu quando eu peguei a pistola?”. A tal da gorda resolveu levantar e ficar bem na minha frente. Ainda ficou me encarando com aquele beiço vermelho e medonho, quase tão inchado quanto a boca da Amanda depois do primeiro soco que eu lhe dei.

 

Era difícil controlar a direção enquanto eu tentava calar a boca daquela maldita, o sangue já escorria das minhas mãos pelo volante. Ela insistia em dizer que estava grávida, que o filho era meu. O carro começou a invadir a outra pista. “Merda, essa puta não para de gritar”. Apertei o pescoço dela o quanto pude, vi a luz de um farol se aproximar, parecia um caminhão, eu precisava apertar mais. “Quero ver ela tentar falar agora”. 

Finalmente a gorda saiu do metrô. Minha respiração parou por alguns segundos quando notei que a Amanda estava bem perto, sentada no mesmo lugar onde antes estava a gorda. Ela também tirou um espelhinho, e eu tentei me esconder para não ser visto. Mais uma vez, vi refletida ao fundo, do outro lado do metrô, a Amanda. “Como ela poderia estar em dois lugares? A não ser que não fosse ela. Com tanta amiga atriz, não seria difícil conseguir alguém parecido, uma dublê que topasse o serviço sujo. É cara dela esse tipo de joguinho”.

Quando eu acordei do coma, falaram que tinha acontecido um acidente, que eu tinha perdido a direção do carro, que eu não poderia mais dirigir, que um caminhão bateu e nos jogou ponte abaixo, que infelizmente não tinham encontrado o corpo da minha namorada. “Essa polícia medíocre não encontra nada. Agora ela estava livre para me perseguir, ela e todas as comparsas do naipe dela”.

Tudo cheirava a ela naquele metrô, o ranço do perfume doce era insuportável. Eu já estava suando frio, as mãos tremendo enquanto tentava segurar a 9 milímetros por baixo da camisa molhada. “Ela deve estar feliz de me ver assim. Se é que uma dessas cópias é mesmo ela”. A essa altura, eu tinha notado várias dublês no vagão. Estava cercado, ela me encurralou direitinho.  Só tinha um jeito de dar fim num inferno desses.

Até hoje não sei se cheguei a acertar alguma bala nela, eram tantas. Tentei alertar à polícia que era tudo uma armadilha, tudo um plano daquela farsante. Não adiantou, fiquei sabendo que chamam esse dia de: “a chacina do vagão das mulheres”. Ontem acordei com baratas roendo as cascas de ferida pelo meu corpo.

As feridas do dia em que cheguei nem cicatrizaram e já me espancaram outra vez. Falam que quem bate em mulher tem mais é que apanhar mesmo. Esses débeis mentais acham que bater em vagabunda é crime pior que roubar gente de bem. Mas esperar o que da escória da sociedade? Eles acreditam até nessa história de que não tem presa mulher aqui. Nem o cheiro de carne podre é capaz de abafar o perfume dela. Eu sabia que ela estava por perto e hoje tive a certeza.

Verdade que ela está um pouco diferente, com a cabeça raspada, a pele meio desbotada, cheia de tatuagem. Essa demônia faz qualquer coisa pra me infernizar. Parece que agora atende pelo nome de Branquinho Canivete, e os caras aqui acham que é alguém de respeito, desses que até polícia trata bem. Quero só ver a reação deles quando eu desmascarar essa pilantra. Posso até ouvir os aplausos enquanto eu seguro a pele falsa, que de branca não tem nada.