Como conversei com a opressora dentro de mim.

Sou branca e já usei cocar no Carnaval. Deixei de usar quando percebi que algumas pessoas se incomodavam com isso, mesmo sem entender o porquê. Achava (e acho) lindo o cocar. Mas a ideia de estar ofendendo alguém me fez parar de usar – não me importava se eu teria esse direito, se quem reclamava estava certo ou errado. Meu prazer em usar um cocar parecia muito pequeno comparado ao incômodo que ele causava, e isso me bastou.

Ao menos isso me bastou para parar de usar. Mas também me despertou uma vontade enorme de entender aquilo que parecia um sentimento tão distante para mim. É difícil ter empatia com dores que não nos tocam, com feridas que não temos acesso (ainda que de alguma forma elas também nos marquem). Por isso, mais que pesquisar teorias prontas, quis ouvir quem vivia isso na pele.

Deu trabalho! Mas também fiquei maravilhada com a quantidade de material que, buscando com a intenção de ouvir, é possível se obter na internet - mesmo sobre um assunto do qual se tenha certa distância (como foi o meu caso). Li muitos textos e assisti a muitos vídeos de diferentes minorias. Foi assim que tive a oportunidade de ouvir, por exemplo, o Daniel Munduruku falar sobre a diferença simbólica e fundamental entre os conceitos de índio e de indígena. Foi assim também que notei uma certa semelhança entre a polêmica do cocar e a do turbante. E lembro que quando assisti ao vídeo “Essa tal apropriação cultural” do canal Muro Pequeno, senti pela primeira vez a sensação de começar a compreender o assunto.

A partir daí, passei a intensificar uma prática que já tinha aderido há um tempo: a de ler e ouvir pessoas com vivências diferentes da minha. Essa parte, inclusive, não foi sacrifício nenhum! Passei a ter contato com um rol de conteúdos muito mais rico, mais provocativo e interessante que costumava ter antes. Mal comparando, foi como sair da Globo para a Netflix (ou melhor ainda: para o YouTube). Lembro que um dos momentos que mais me emocionou foi quando ouvi o depoimento da Nátaly Neri, do canal Afros e Afins, sobre como ela foi abordada por um segurança. Ela estava numa festa de youtubers, quando esse segurança se aproximou porque teria deduzido que ela estava ali como penetra. Isso me fez pensar em quantas vezes, como mulher branca, passei pelas calçadas de bairros nobres e ouvi os cliques dos portões se abrindo para mim. Isso já me aconteceu tanto.

Eu passo pelos prédios e os porteiros deduzem que eu sou moradora ou visita e espontaneamente abrem os portões. Ainda que eu esteja apenas caminhando pela calçada, sem qualquer intenção de entrar, basta eu me aproximar para eles abrirem. Já achava isso esquisito antes. Mas ouvindo o depoimento da Nátaly fico pensando em como isso é uma metáfora viva, como tantas pessoas não brancas são expulsas de lugares que batalham para entrar, enquanto portas literalmente se abrem para mim. Não é uma questão de culpa ou de não reconhecer que tem lugares nos quais eu também preciso me esforçar para entrar. Mas não dá para simplesmente ignorar uma diferença dessas.

Se por um lado notei diferenças, por outro também comecei a perceber alguns pontos em comum. No vídeo “Intervenção no Rio: como sobreviver a uma abordagem indevida” do canal Spartakus Vlog, três homens negros dão dicas sobre como se manter vivo numa sociedade que associa a cor da pele deles a assassinos. Por motivos diferentes, andar na rua durante a madrugada não é aconselhável nem para eles nem para mim. Isso me faz acreditar que somos sim oprimidos por um mesmo sistema. E também me faz pensar que, talvez, uma das formas de enfrentar um sistema tão arraigado na sociedade seja justamente encarando a parte dele que está dentro de mim.

Entre diferenças e semelhanças, comecei a perceber que, de alguma forma, esse movimento de conhecer mais do outro tem me feito conhecer mais de mim. Aliás, tem sido uma via de mão dupla! Quando tive a curiosidade de entender as diferenças entre os tantos povos indígenas que ocupam o Brasil, por exemplo, tive também a vontade de pesquisar mais a fundo sobre aqueles que fazem parte do estado de onde eu venho: Alagoas. A verdade é que, aos poucos, venho conhecendo mais sobre a história da minha terra – daqui do Rio de Janeiro – que durante todo o tempo que vivi nela. Enquanto estava lá, cresci ouvindo que Rio e São Paulo eram cidades muito melhores.

Hoje, vejo que sou mais alagoana que nunca! Talvez por isso mesmo, tenha me emocionado tanto ao ouvir Djamila Ribeiro citar Abdias do Nascimento durante uma entrevista. Ela lembrou que genocídio é todo aniquilamento moral, intelectual e cultural, e que quando você mata uma cultura você mata um povo. Chorei instantaneamente! Lembrei tanto da minha terra, da invisibilidade do meu povo alagoano, do quanto a nossa produção cultural e intelectual ainda é constantemente subvalorizada e reduzida a estereótipos, e do quanto isso também reduz a nossa existência (no sentido mais literal!).

Fui de não entender o porquê de o uso do cocar ser uma ofensa a chorar pela invisibilidade do meu povo, e a me identificar com a invisibilidade produzida por qualquer apropriação cultural. Nesse meio do caminho – que, aliás, é bem mais longo que a distância entre esses parágrafos – acredito que aprendi um bocado, e continuo aprendendo. Tenho aprendido, por exemplo, que muitas vezes o que chamamos de direito individual é mesmo privilégio; que as violências simbólica e física se alimentam; que reconhecer os meus privilégios também me ajuda a reconhecer a mim mesma por inteiro; e que poder enxergar a ferida do outro ajuda a ver as minhas próprias feridas – aquelas tão difíceis de chegar perto, mas impossíveis de curar sem ver.

Tenho sentido cada vez menos medo de aprender; de mudar de opinião; de assumir que, por vezes, não tenho uma opinião formada sobre determinado assunto. E tenho a impressão que quanto mais o meu lado opressor e o meu lado oprimido conversam, menos opressora e menos oprimida eu me torno.