Chikungunya

Com sangue nas mãos e um sorriso no canto da boca, eu estava pronta para dormir tranquila, sabendo que a partir daquela madrugada meu inimigo não me incomodaria mais. Antes ele do que eu! Fazia dias que eu passava noites mal dormidas lutando contra o zumbido do agora falecido pernilongo. Criatura tão desgraçada que nem para o céu deve ir.

Deitei a cabeça e aguardei ansiosa pela longa noite de sono, merecida depois de tantas horas de trabalho na agência de publicidade. Essa semana tive que cortar um dobrado por conta de uma epidemia de Zika que deu folga para metade da equipe de criação, justo no meio de uma campanha milionária de prevenção patrocinada pelo Governo do Rio. Fico até na dúvida se um azar desses foi mesmo ironia do destino ou coincidência demais. Aliás, mais um motivo para eu comemorar minha vitória contra o pequeno inseto de calças listradas que até poucas horas teimava em me perturbar.

Pena que amanhã não vai ter jeito. Logo cedo, vou ter que layoutar pelo menos três ou quatro versões do panfleto com instruções para evitar a proliferação do Aedes aegypti. “Nada de água parada!” vou escrever mais uma vez, tentando convencer os moradores do Rio das Pedras ou da Cidade de Deus, por exemplo, que basta cada um fazer sua parte. Que o melhor a fazer é seguir o passo a passo do panfleto e ficar de olho se o vizinho vai fazer o mesmo.

Eu escrevo “mantenham a lixeira bem fechada”, mesmo sabendo que o caminhão da Comlurb raramente passa por lá. Eu peço cuidado com a água nos pratinhos das plantas, mesmo já tendo visto as montanhas de lixo que se formam nas vielas (com pneus, garrafas, toneis) consideradas pouco atraentes para as ilustrações do panfleto, mas bastante cobiçadas pelo mosquito – que antes era só da dengue e agora dá até Malária.

Quem sabe amanhã eu aprovo o maldito panfleto e me livro da imagem do mosquito como me livrei do burburinho no meu ouvido hoje. Daqui a pouco, o despertador vai tocar e eu vou levantar para fazer tudo do jeitinho que o chefe me pedir. Mas agora eu só consigo pensar que, por acaso, eu descobri que o nome Chikungunya vem de um dialeto da Tanzânia e significa “Aqueles que se dobram”, dado por conta do andar curvado das pessoas acometidas por essa dolorosa doença.